Artigo de trabalho · Juventude, municípios e transformação digital

Jovens e Inteligência Artificial: o desafio que os municípios já não podem adiar

A Inteligência Artificial já entrou no estudo, no lazer, na criatividade, na procura de conselhos e, em alguns casos, no apoio emocional dos jovens. Para os municípios, este não é apenas um tema tecnológico. É uma agenda de juventude, educação, saúde, cidadania digital, inclusão e participação.

APPJuventude – Associação Portuguesa de Profissionais de Juventude · Reflexão e proposta de trabalho para políticas locais de juventude

Jovens a utilizar tecnologias digitais e inteligência artificial, com destaque para educação, bem-estar, cidadania digital, participação e inclusão no trabalho municipal de juventude.
A IA já faz parte da vida de muitos jovens. A resposta local deve combinar literacia, proteção, participação e capacitação.

A questão já não é saber se os jovens usam Inteligência Artificial. Usam. A questão é saber se as comunidades, as escolas, os municípios, as associações juvenis e os profissionais de juventude estão preparados para os ajudar a usar estas ferramentas com sentido crítico, segurança, criatividade e responsabilidade.

Este tema é demasiado importante para ficar fechado numa conversa sobre tecnologia. A IA generativa já interfere com a forma como muitos jovens estudam, procuram informação, criam conteúdos, pedem ajuda, tomam decisões e se relacionam com o mundo digital. Quando uma ferramenta entra assim no quotidiano juvenil, o setor da juventude não pode ficar a assistir de longe.

  • Literacia em IA
  • Participação jovem
  • Educação não formal
  • Saúde e bem-estar
  • Deepfakes
  • Desinformação
  • Competências municipais
  • Políticas locais de juventude

1. O que está realmente em causa?

Durante anos, a discussão sobre jovens e tecnologia passou sobretudo por redes sociais, tempo de ecrã, jogos, cyberbullying e segurança online. Todos esses temas continuam a ser relevantes. Mas a Inteligência Artificial acrescenta uma dimensão diferente: os jovens deixaram de estar apenas a consumir conteúdos ou a comunicar entre si. Agora dialogam com sistemas que respondem, explicam, sugerem, resumem, escrevem, desenham, simulam conversas e dão conselhos.

Um chatbot pode explicar uma matéria, ajudar a preparar um teste, organizar um trabalho, sugerir ideias para um projeto, criar uma imagem realista, traduzir um texto, montar um plano de estudo ou responder a uma dúvida pessoal. Pode ser útil. Pode poupar tempo. Pode até desbloquear aprendizagens. Mas também pode errar, inventar, manipular, simplificar em excesso ou transmitir uma falsa sensação de segurança.

Por isso, a resposta não pode ser feita de extremos. Nem proibição cega, nem entusiasmo ingénuo. O caminho tem de ser educativo, preventivo e participado. Os jovens precisam de competências para viver num mundo onde a IA está presente, mesmo quando não é visível.

2. O que os estudos mais recentes já nos mostram

O relatório europeu European children’s use and understanding of Generative AI, do EU Kids Online, publicado em 2026, é uma das referências mais importantes para este debate. O estudo reúne dados comparativos de 20 países europeus, incluindo Portugal, e analisa como crianças e adolescentes usam, compreendem e avaliam a IA generativa.

A evidência aponta para uma utilização sobretudo educativa e prática: estudar, poupar tempo, simplificar conceitos difíceis, procurar informação, fazer brainstorming e apoiar trabalhos escolares. Mas também surgem usos criativos, procura de conselhos, dúvidas sobre saúde, experiências com imagens e preocupação com desinformação, privacidade, manipulação e conteúdos sintéticos.

Em Portugal, a equipa EU Kids Online Portugal disponibiliza publicações específicas sobre crianças, jovens e IA generativa, com resultados nacionais dos estudos EU Kids Online 2025. É uma base essencial para municípios, escolas, técnicos e organizações que queiram desenhar respostas locais com dados e não apenas com perceções.

A conclusão mais importante para o trabalho com jovens é simples: a IA já é usada para aprender, criar, pesquisar e decidir. Mas nem todos os jovens têm a mesma capacidade de avaliar respostas, confirmar fontes, proteger dados pessoais ou perceber quando uma interação aparentemente útil pode ser inadequada.

Oportunidade

A IA pode apoiar aprendizagem, criatividade, acessibilidade, tradução, produção de conteúdos, experimentação e participação jovem.

Risco

Pode também reforçar desinformação, dependência, plágio, exposição de dados, deepfakes, conselhos errados e perda de pensamento crítico.

Desigualdade

Quem tem mais apoio, competências digitais e capacidade de verificação tende a beneficiar mais. Quem tem menos suporte pode ficar mais exposto.

3. Porque é que isto é claramente uma questão de juventude?

Há temas que entram nas políticas de juventude porque mexem com a forma como os jovens vivem, aprendem, participam, se protegem e constroem autonomia. A Inteligência Artificial é um desses temas.

Não estamos apenas perante uma ferramenta para fazer trabalhos escolares. Estamos perante uma tecnologia que interfere com dimensões centrais do desenvolvimento jovem:

  • Aprendizagem: pode ajudar a estudar melhor, mas também pode levar os jovens a delegar tarefas sem compreenderem o processo.
  • Pensamento crítico: respostas rápidas e bem escritas podem parecer verdadeiras mesmo quando estão erradas, incompletas ou enviesadas.
  • Criatividade: abre novas possibilidades de expressão, mas levanta questões sobre autoria, originalidade, direitos de imagem e consentimento.
  • Relações e bem-estar: chatbots e companheiros de IA podem parecer disponíveis, empáticos e sem julgamento, mas não substituem relações humanas nem acompanhamento profissional.
  • Cidadania digital: deepfakes, manipulação de imagens, vozes falsas e conteúdos sintéticos exigem novas competências de leitura crítica.
  • Participação: jovens mais preparados podem usar IA para criar projetos, campanhas, diagnósticos, propostas e novas formas de intervir no território.

Vista assim, a IA não é assunto apenas de informática. É assunto de juventude, educação não formal, democracia, saúde pública, inclusão e desenvolvimento local.

4. O ponto mais sensível: quando a IA entra no apoio emocional

Uma das áreas que merece maior atenção é o uso de chatbots e companheiros de IA para conversas pessoais, dúvidas íntimas, solidão, ansiedade, relações, autoestima ou apoio emocional. O Parlamento Europeu tem alertado para os riscos associados a sistemas desenhados para interações personalizadas e emocionalmente envolventes, sobretudo quando usados por crianças e jovens.

O problema não está em um jovem escrever uma preocupação num chatbot. O problema está em acreditar que aquele sistema compreende, acompanha, protege ou substitui uma pessoa de confiança. A IA pode responder de forma convincente, mas não conhece verdadeiramente o contexto do jovem, não tem responsabilidade afetiva e pode falhar precisamente quando a situação é mais delicada.

A mensagem deve ser clara: a IA pode ajudar a organizar ideias, preparar perguntas ou explicar temas difíceis. Mas não deve substituir amigos, família, professores, técnicos de juventude, psicólogos, médicos ou linhas de apoio quando está em causa sofrimento, violência, abuso, risco ou crise.

Esta conversa deve ser feita com os jovens sem moralismos. O objetivo não é envergonhar quem recorre à IA. É criar critérios. Quando é que a IA pode ajudar? Quando é que tenho de verificar? Quando é que devo falar com uma pessoa real? Que dados nunca devo partilhar? Como reconheço uma resposta perigosa?

5. Os municípios têm base para agir

Este ponto é importante para decisores locais. Os municípios não precisam de esperar por uma competência chamada “Inteligência Artificial”. A intervenção municipal nesta área pode ancorar-se em responsabilidades que já existem e que se cruzam diretamente com a vida dos jovens.

Ou seja: um município pode trabalhar IA e juventude sem invadir competências de outras entidades. Pode fazê-lo através de educação não formal, capacitação de profissionais, apoio ao associativismo jovem, articulação com escolas, bibliotecas, espaços juventude, conselhos municipais, programas de inclusão, redes de saúde e bem-estar, iniciativas de cidadania digital e estratégias municipais de juventude.

A pergunta certa talvez não seja “isto é competência do município?”. A pergunta certa é: em que áreas municipais este tema já está a ter impacto e que resposta integrada estamos a construir?

6. O que pode fazer um município, na prática?

Uma resposta local forte não começa pela compra de ferramentas. Começa por diagnóstico, participação, capacitação e visão estratégica. A IA deve ser tratada como uma dimensão das políticas locais de juventude, não como uma atividade pontual para assinalar uma tendência.

Área municipal O que está em causa Resposta possível
Juventude e participação Os jovens devem participar na definição das necessidades, prioridades e cuidados a ter. Auscultação jovem, grupos de trabalho, Conselho Municipal de Juventude e embaixadores jovens para uso responsável da IA.
Educação e competências A IA já está presente no estudo, nos trabalhos escolares e na pesquisa de informação. Oficinas de literacia em IA, sessões com escolas, guias para estudar com IA sem copiar e formação de mediadores.
Bibliotecas e espaços municipais São lugares de proximidade, aprendizagem e acesso inclusivo à informação. Laboratórios de experimentação, apoio a jovens sem acesso digital e sessões práticas sobre fontes, prompts e verificação.
Saúde e bem-estar Alguns jovens podem procurar conselhos emocionais ou de saúde junto de chatbots. Informação clara sobre limites da IA, encaminhamento para apoio humano e articulação com escolas, saúde, CPCJ e redes locais.
Associativismo jovem As associações podem usar IA para comunicação, candidaturas, campanhas e projetos. Capacitação para uso ético da IA em projetos jovens, comunicação, Erasmus+, participação e gestão associativa.
Cultura, criatividade e media Imagens, vídeos, vozes e deepfakes já fazem parte da cultura digital dos jovens. Workshops sobre criação responsável, consentimento, direitos de imagem, desinformação e produção criativa com IA.

7. Dez pistas para uma política municipal de IA e juventude

  1. Começar por ouvir os jovens. Antes de desenhar atividades, é preciso saber como usam IA, onde sentem dúvidas, que riscos identificam e que competências querem desenvolver.
  2. Não reduzir o tema à escola. A IA entra nos trabalhos escolares, mas também nas relações, no lazer, na criatividade, na saúde, no consumo e na participação cívica.
  3. Capacitar técnicos de juventude. Não há política local consistente sem profissionais preparados para conversar sobre IA de forma prática, segura e sem moralismos.
  4. Trabalhar com escolas, mas a partir da educação não formal. Oficinas, laboratórios, desafios, simulações, debates e projetos jovens podem ser mais eficazes do que sessões expositivas demasiado longas.
  5. Envolver famílias e encarregados de educação. Muitos adultos sentem-se ultrapassados. O município pode criar pontes, traduzir conceitos e reduzir o fosso geracional.
  6. Ensinar verificação, não apenas utilização. Saber fazer uma pergunta à IA é útil. Saber desconfiar, comparar fontes, pedir evidências e reconhecer limites é essencial.
  7. Falar de deepfakes sem dramatizar. Jovens precisam de compreender consentimento, imagem, reputação, violência digital e consequências legais e sociais da manipulação de conteúdos.
  8. Criar respostas inclusivas. Nem todos os jovens têm o mesmo acesso, equipamento, apoio familiar, literacia, domínio de inglês ou confiança para experimentar ferramentas digitais.
  9. Definir regras para projetos municipais com IA. Sempre que o município use ferramentas digitais em atividades com jovens, deve garantir transparência, proteção de dados, supervisão humana e adequação etária.
  10. Avaliar resultados. Um bom programa deve medir competências adquiridas, participação jovem, satisfação, mudanças de comportamento, necessidades emergentes e impacto territorial.

8. Um modelo possível: Programa Municipal “IA e Juventude”

Um município que queira atuar com consistência pode estruturar um programa em seis eixos simples:

1. Radar Local

Diagnóstico rápido com jovens, escolas, associações, técnicos, famílias e decisores para perceber práticas reais, riscos sentidos e oportunidades no território.

2. Capacitação Técnica

Formação para profissionais de juventude, técnicos municipais, dirigentes associativos e mediadores locais sobre IA, juventude, ética e segurança.

3. Laboratórios Jovens

Oficinas práticas sobre estudo com IA, criação de conteúdos, deepfakes, verificação de informação, dados pessoais, saúde e bem-estar.

4. Participação e Co-desenho

Ativação de jovens, associações e Conselho Municipal de Juventude para criar recomendações locais e campanhas entre pares.

5. Kit Municipal

Guião simples para escolas, associações, serviços municipais e espaços juventude: o que fazer, o que evitar e como encaminhar situações de risco.

6. Monitorização

Avaliação anual com indicadores, testemunhos, identificação de novas necessidades e melhoria contínua do programa.

Este modelo pode ser aplicado por um município, por uma comunidade intermunicipal ou por uma rede de municípios. Pode começar pequeno, com uma fase-piloto em escolas, biblioteca municipal, espaço jovem ou associação juvenil, e evoluir para uma estratégia local mais robusta.

9. O que os jovens devem aprender, de forma simples

Uma boa iniciativa municipal não deve transformar a literacia em IA num discurso técnico e distante. Deve traduzir competências complexas em mensagens claras, treináveis e próximas da vida real dos jovens.

Usa, mas não desligues a cabeça

A IA pode ajudar a explicar, resumir e organizar ideias. Mas pensar continua a ser teu.

Verifica antes de confiar

Uma resposta bem escrita não é, por si só, uma resposta verdadeira. Compara fontes e procura evidências.

Protege dados pessoais

Não partilhes morada, contactos, documentos, imagens íntimas, informações de saúde ou problemas familiares com ferramentas que não controlas.

Não uses IA para prejudicar alguém

Deepfakes, montagens, vozes falsas e exposição de imagens sem consentimento podem ter consequências sérias.

Pede ajuda humana

Se há sofrimento, medo, violência, abuso, crise ou risco, fala com uma pessoa de confiança ou com um serviço próprio.

Cria com responsabilidade

A IA pode ser uma ferramenta criativa poderosa. Usa-a para aprender, experimentar, participar e construir, não para copiar ou manipular.

10. Uma checklist para municípios antes de avançar

Antes de lançar uma iniciativa sobre IA e juventude, vale a pena responder a dez perguntas:

  1. Que dados temos sobre a forma como os jovens do concelho usam IA?
  2. Que jovens ficam habitualmente fora das oportunidades digitais?
  3. Como vamos envolver o Conselho Municipal de Juventude, associações juvenis, escolas e grupos informais?
  4. Que técnicos municipais e profissionais de juventude precisam de formação prévia?
  5. Como vamos abordar saúde mental, apoio emocional e situações de risco?
  6. Que regras teremos sobre dados pessoais, imagens, consentimento e privacidade?
  7. Como vamos distinguir uso educativo da IA de cópia, dependência ou delegação total de tarefas?
  8. Que materiais simples vamos deixar no território depois das sessões?
  9. Como vamos medir se os jovens ganharam competências reais?
  10. Como vamos transformar uma atividade pontual numa política local continuada?

11. O papel dos profissionais de juventude

Num tempo em que se fala tanto de tecnologia, é importante recordar algo que o setor da juventude conhece bem: a qualidade da resposta depende das pessoas que acompanham os jovens. Ferramentas mudam. Plataformas mudam. Modas digitais mudam. Mas a relação educativa, a escuta ativa, a participação, a confiança e a mediação continuam a ser decisivas.

O profissional de juventude tem aqui um papel central. Pode ajudar os jovens a experimentar sem medo, questionar sem vergonha, reconhecer riscos, criar projetos, participar em decisões e transformar tecnologia em oportunidade. Pode também fazer a ponte entre município, escolas, associações, famílias e serviços especializados.

Por isso, qualquer programa local sobre IA e juventude deve investir na capacitação dos profissionais. Não basta fazer uma sessão para jovens. É preciso deixar capacidade instalada no território.

Da preocupação à estratégia local

Os municípios que queiram trabalhar esta área com seriedade não precisam de começar do zero. Podem começar com uma pergunta simples: que programa local de IA e Juventude faz sentido para o nosso território?

A APPJuventude tem trabalhado na valorização dos profissionais de juventude, na educação não formal, na inovação social, na participação jovem e no desenvolvimento de políticas locais. Essa experiência pode ajudar municípios e redes intermunicipais a passar de ações pontuais para programas estruturados, adaptados à realidade local e avaliáveis no tempo.

Falar com a APPJuventude sobre um programa local

12. Conclusão: proteger, capacitar e envolver

A Inteligência Artificial não é apenas mais uma ferramenta. É uma mudança na forma como os jovens aprendem, pesquisam, criam, comunicam e pedem ajuda. Ignorar esta mudança seria deixar os jovens sozinhos num território digital cada vez mais complexo.

Mas responder bem não significa criar pânico. Significa criar literacia. Significa envolver jovens. Significa preparar profissionais. Significa usar as competências próprias do município para promover educação, participação, saúde, inclusão, cultura digital e desenvolvimento local.

Os municípios têm proximidade, legitimidade territorial e capacidade de articulação. Têm escolas, bibliotecas, associações, conselhos, espaços jovens, equipas técnicas e redes locais. Têm, acima de tudo, a possibilidade de transformar um tema global numa resposta concreta de proximidade.

É aqui que a política de juventude faz a diferença: quando antecipa desafios, escuta os jovens e cria condições para que a tecnologia seja usada com sentido humano, democrático e comunitário.

Webgrafia e bibliografia essencial

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Nota: este artigo tem natureza informativa e estratégica. A implementação de programas municipais deve ser ajustada aos regulamentos, planos, estruturas orgânicas e procedimentos próprios de cada município.