Hilário Matos

Opinião · Políticas de juventude

Hilário Matos

Presidente da APPJuventude

Um jovem entra no site de uma instituição à procura de uma informação que lhe diz respeito. Procura. Abre páginas. Encontra documentos. Fecha documentos. Volta atrás. Experimenta outra palavra. Ao fim de alguns minutos desiste.

A informação estava lá.

Este pormenor interessa-me cada vez mais.

Porque talvez uma parte do problema das políticas de juventude esteja precisamente aqui: habituámo-nos a avaliar aquilo que criamos e muito menos aquilo que acontece quando um jovem tenta realmente usar o que criámos.

Há programas. Há serviços. Há espaços. Há regulamentos, plataformas, apoios, atividades e mecanismos de participação.

A pergunta habitual é: existem?

Talvez estejamos a fazer a pergunta errada.

A pergunta deveria ser: funcionam para quem deles precisa?

No mundo digital existe uma expressão que entrou há muito no nosso vocabulário: user friendly. Dizemos que uma aplicação é user friendly quando foi pensada para quem a utiliza. Não basta estar tecnicamente correta. Tem de ser compreensível, acessível e simples de usar.

Se ninguém percebe onde deve clicar, há um problema.

Se precisamos de um manual para executar uma tarefa elementar, há um problema.

Se o utilizador abandona o processo a meio, há um problema.

Curiosamente, somos muito mais exigentes com uma aplicação no telemóvel do que com muitos dos serviços que criamos para as pessoas.

É aqui que vejo espaço para começarmos a falar seriamente de Youth Friendly.

Não como mais um título simpático para dizer que gostamos dos jovens. Nem como uma forma nova de embrulhar políticas que já existem.

Como uma pergunta.

Isto foi realmente pensado para funcionar na vida de um jovem?

A diferença parece semântica. Não é.

Um serviço pode estar formalmente disponível e ser praticamente inacessível.

Um regulamento pode estar juridicamente impecável e ser incompreensível para quase todos aqueles a quem se destina.

Um espaço pode ter sido criado para jovens e não ser frequentado por eles.

Uma estrutura de participação pode reunir regularmente e, ainda assim, ter pouca influência nas decisões que realmente interessam.

Uma campanha pode atingir milhares de visualizações e não conseguir explicar o que um jovem precisa de fazer a seguir.

Nada disto significa necessariamente que alguém tenha trabalhado mal.

Significa apenas que existe uma diferença entre criar uma resposta e criar uma resposta que funciona.

Vejo esta distância com frequência suficiente para acreditar que merece mais atenção.

Parte dela nasce da própria forma como as instituições trabalham. Quem conhece um serviço por dentro sabe onde procurar, conhece os nomes dos departamentos, percebe a linguagem utilizada e conhece os procedimentos.

Quem chega de fora não sabe nada disso.

E não deveria precisar de saber.

Se um jovem precisa de conhecer a estrutura orgânica de uma instituição para descobrir uma oportunidade destinada a jovens, provavelmente o problema não está no jovem.

Também há aqui uma questão mais profunda sobre participação.

Durante muito tempo habituámo-nos a falar em “dar voz aos jovens”. Nunca gostei particularmente da expressão. Os jovens já têm voz.

A questão é outra: o que acontece depois de falarem?

Foram ouvidos numa fase em que ainda era possível mudar alguma coisa? Percebem o que aconteceu àquilo que disseram? Conseguem reconhecer alguma consequência da sua participação?

Ou foram chamados quando quase tudo estava decidido?

Uma política Youth Friendly teria necessariamente de levar estas perguntas a sério.

Não porque tudo tenha de ser decidido por jovens. Não tem.

Governar implica escolhas, recursos limitados, conhecimento técnico, regras e responsabilidades que não desaparecem por ouvirmos melhor.

Mas decidir melhor exige compreender melhor quem vai viver com as decisões.

Há ainda outra razão para esta discussão me interessar.

Trabalhamos frequentemente com indicadores sobre jovens. Sabemos quantos estudam, quantos trabalham, quantos saem de determinado território, quantos estão desempregados ou quantos participam numa determinada atividade.

Esses dados são indispensáveis.

Mas há coisas que os números dificilmente conseguem contar sozinhos.

Não mostram a frustração de quem não percebe um formulário.

Não explicam porque alguém entrou uma vez num espaço e nunca regressou.

Não mostram o momento em que uma linguagem demasiado institucional transforma uma oportunidade numa coisa que “não é para mim”.

Não explicam porque um jovem sabe que existe um serviço, mas não sente confiança para entrar pela porta.

Os dados dizem-nos muito sobre a realidade. A experiência ajuda-nos a perceber como essa realidade é vivida.

Precisamos das duas.

É também por isso que me parece pouco interessante transformar Youth Friendly em mais uma competição sobre quem é mais amigo dos jovens.

Já temos demasiada tendência para transformar boas ideias em distinções, estrelas, bandeiras e fotografias.

O problema não é sabermos quem merece uma placa.

O problema é descobrirmos onde estão as barreiras que deixámos de ver porque nos habituámos a elas.

Ser Youth Friendly não deveria significar alcançar um estado permanente de perfeição.

Deveria significar manter uma disposição permanente para perguntar, ouvir e corrigir.

Isso aplica-se a um município, mas também a uma universidade, uma associação, um serviço público, uma empresa, um museu, um sistema de transportes ou uma plataforma digital.

Sempre que alguém cria alguma coisa destinada a jovens, há uma pergunta que devia surgir antes da inauguração, do lançamento ou da campanha de comunicação.

Como será isto visto por quem está do outro lado?

É uma pergunta simples. Por vezes desconfortável.

Obriga-nos a abandonar durante alguns minutos o lugar de quem conhece o sistema e a olhar para ele a partir de quem chega pela primeira vez.

Talvez seja precisamente isso que falta em algumas políticas de juventude.

Não necessariamente mais programas.

Não necessariamente mais estruturas.

Às vezes, precisamos apenas de olhar de outro lugar para aquilo que já construímos.

Porque ter uma resposta para jovens não significa que os jovens consigam chegar até ela.

E uma política que ninguém consegue encontrar, compreender ou usar pode existir em todos os documentos oficiais.

Na vida de um jovem, talvez não exista de todo.